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Dicotomia

     Quase nove da noite, taça de vinho esvaindo-se. Banho tomado. Unhas feitas. Cabelo hidratado, lavado. Academia do dia feita, massagem feita, terapia feita.  Todo dia, uma incessante busca pela perfeição, cada vez mais longe de alcançá-la. Eternamente insatisfeita com a meta. Lutei por um ano pela vaga na subespecialidade. Segunda residência antes dos 30 anos. Me afoguei ininterruptamente no trabalho esse mês, emendando plantão em plantão, desnorteada quando as poucas folgas chegaram à mão. Loucura. Loucura, do Oxford, "sentimento ou sensação que foge ao controle da razão" . Queimar um império e reconstruir, tijolo à tijolo, outro melhor.  Aos 27, mais uma mudança. Aos 30, vou embora mais uma vez.  Me relembro: dinheiro é só uma via. É conquista, é liberdade, mas é a via. O meio, não o fim.

Domingo à tarde

     Mastiguei dois livros num frenesi de leitura nos últimos dias. Dois livros do clube do livro: "Três mulheres" de Lisa Taddeo e "De quatro" de Miranda July.       Meu maior medo é acordar infeliz em um casamento, com filhos, presa à uma rotina que não me agrada, obrigada à servir pessoas que pouco se importam com minha individualidade. Em uma rotina que não me permita uma caneca de chá, uma refeição questionável, três gatos e um ou outro livro divertido, sem objetivo profissionalizante. Em que seja impossível apreciar o silêncio da casa por horas e depois preenchê-lo com músicas underground cantadas à plenos pulmões aos ventos da varanda.       É me ver, mais uma vez, em um relacionamento com alguém que se esforça para que eu caiba somente nos meus 1,57m e que não queira me ver crescendo e florescendo à cada dia cotidiano. Alguém que sorrateiramente me diga que eu não deveria fazer outra residência, que não deveria assumir outro...

Novos recomeços

 Segundo dia do ano, primeiro dia de folga.  Por mais um ano consecutivo, optei por realizar a passagem do ano trabalhando. Graças a Deus fui presenteada com dois plantões relativamente tranquilos. Hoje me encontro de folga. Janeiro terá uma rotina estarrecedora . Não sei em quais dias da semana programarei terapia. Só sei que preciso mantê-la.  Li minhas metas do ano passado. Praticamente todas cumpridas. Praticamente, porque apenas uma precisa de uma resolução mais contundente, que só o tempo trará: passar na prova de R+.  Mais uma vez em minha vida, sigo atormentada por uma prova e uma vaga. Aguardo desfechos futuros com bom humor, porém, poucas certezas. Respira fundo! - segue na parede mais uma vez. "Talvez seguir à deriva seja aprender a ler o mar — saber quando remar com força e quando só deixar a maré te levar" Talvez seja hora de deixar a maré levar. Já remei com muita força.

Descentralizando amores românticos e buscando apenas a si própria

Achei que seria produtivo começar de novo. É particularmente interessante revisitar os retalhos de si em cada texto antigo quando estamos encerrando um ciclo. Ano conturbado - como todos os outros - e o melhor até hoje apesar dos pesares - como todos os outros.  Mais uma vez, estou com um copo de chá do meu lado - é verão, faz tantos graus que tenho dúvidas se é Celsius ou Fahrenheit - e o movimento repetitivo da minha perna não foi o suficiente para conter minha ansiedade.  Sinto-me particularmente orgulhosa pela dedicação neste ano para as leituras do clube do livro. Retomar minha vida pessoal e meus hobbies, há tanto enterrados profundamente pela medicina, foi primordial para manter o mínimo de sanidade diária que os 365 dias exigiram.  Meu vocabulário tornou-se diminuto com o passar do tempo. Esqueci as palavras nas páginas do tempo. Vejo que é tempo para olhar para mim - e desenterrar minhas idiossincrasias . Nessa busca pelo obsoleto, descobri inúmeros textos belíss...